Fugir ao assunto Stephen Downes Universidade de Alberta
As falácias desta secção fogem ao assunto, discutindo a
pessoa que avançou um argumento em vez de discutir razões
para aceitar ou não aceitar a conclusão.
Em algumas ocasiões é aceitável citar autoridades, (por exemplo, citar o médico para justificar o
uso de um medicamento) quase nunca é apropriado discutir a pessoa em vez dos seus argumentos.
Ataques pessoais (argumentum ad hominem)
Ataca-se pessoa que apresentou um argumento e não o argumento que apresentou.
A falácia ad hominem assume muitas formas. Ataca, por exemplo, o
carácter, a nacionalidade, a raça ou a religião da pessoa.
Em outros casos, a falácia sugere que a pessoa, por ter algo tem algo a ganhar com o argumento,
é movida pelo interesse.
A pessoa pode ainda ser atacada por associação ou pelas suas companhias.
Há três formas maiores da falácia ad hominem:
Ad hominem (abusivo): em vez de atacar uma afirmação,
o argumento ataca pessoa que a proferiu.
Ad hominem (circunstancial): em vez de atacar uma afirmação,
o autor aponta para as circunstâncias em que a pessoa que a fez
e as suas circunstâncias.
Tu quoque: esta forma de ataque à pessoa
consiste em fazer notar que a pessoa não pratica o que diz.
Exemplos:
Podes dizer que Deus não existe mas estás apenas
a seguir a moda (ad hominem abusivo).
É natural que o ministro diga que essa política fiscal é boa
porque ele não será atingido por ela (ad hominem circunstancial).
Podemos passar por alto as afirmações de Simplício porque
ele é patrocinado pela indústria da madeira (ad hominem circunstancial).
Dizes que eu não devo beber, mas não estás sóbrio
faz mais de um ano (tu quoque).
Prova: Identifique o ataque e mostre que o carácter ou as circunstâncias
da pessoa nada tem a ver com a verdade ou falsidade da
proposição defendida.
Referências:
Barker: 166; Cedarblom e Paulsen: 155; Copi e Cohen: 97; Davis: 80.
Apelo à autoridade
(argumentum ad verecundiam)
Ainda que às vezes seja apropriado citar uma autoridade
para suportar uma opinião, a maioria das vezes não o é. O apelo
à autoridade é especialmente impróprio se:
A pessoa não está qualificada para ter uma opinião de perito no assunto.
Não há acordo entre os peritos do campo em questão.
A autoridade não pode, por algum motivo ser levada a
sério — porque estava brincar, estava ébria ou por qualquer outro motivo.
Uma variante da falácia do apelo à autoridade é o "ouvi dizer"
ou "diz-se que". Um argumento por "ouvir dizer" é um
argumento que depende de fontes em segunda ou terceira mão.
Exemplos:
O famoso psicólogo Dr. Frasier Crane recomenda-lhe que compre
o último modelo de carro da Skoda.
O economista John Kenneth Galbraith defende que uma
apertada política económica é a melhor cura para a recessão.
(Apesar de Galbraith ser um perito, nem todos os economistas estão
de acordo nesta questão.)
Encaminhamo-nos para uma guerra nuclear. A semana passada
Ronald Reagan disse que começaríamos a bombardear a Rússia
em menos de cinco minutos. (Claro que o disse por piada ao testar o microfone.)
Sousa disse que nunca perdoaria ao Pinto. (Trata-se de um caso
de “ouvir dizer” — de facto ele apenas disse que Pinto nada tinha feito
para ser perdoado.)
Prova:
Mostre uma de duas coisas (ou ambas):
A pessoa citada não é uma autoridade no campo em questão;
Entre os especialistas não há consenso sobre o assunto discutido.
Referências: Cedarblom and Paulsen: 155;
Copi e Cohen: 95;
Davis: 69.
Autoridade anónima
A autoridade em questão não é nomeada. Isto é uma forma
de apelo à autoridade porque quando a autoridade não é nomeada
é impossível confirmar se se trata de um perito.
Esta falácia é tão comum que merece uma menção especial.
Uma variante desta falácia é o apelo ao rumor. Como a fonte
do rumor é, em regra, desconhecida, não é possível verificar
se o rumor merece crédito.
Rumores falsos e caluniosos são lançados muitas vezes
intencionalmente com o objectivo de desacreditar o oponente.
Exemplos:
Um membro do governo disse que uma nova lei sobre posse
e uso de armas será proposta amanhã.
Os peritos dizem que a melhor maneira de prevenir uma guerra
nuclear é estar preparado para ela.
Sabe-se que milhares de operações desnecessárias são
realizadas todos os anos.
Diz-se que o primeiro-ministro vai decretar outro feriado
antes das eleições.
Prova: Argumente que pelo facto de não conhecermos a fonte e a base
da informação, não temos maneira de avaliar a fiabilidade da
informação.
Referências: Davis: 73.
Estilo sem substância
Pretende-se que o modo como o argumento ou o argumentador se
apresentam contribui para a verdade da conclusão.
Exemplos:
Nixon perdeu o debate presidencial porque tinha suor na testa.
Trudeau sabe dirigir as massas. Ele deve ter razão.
Por que não aceitas o conselho daquele jovem elegante e
bem parecido?
Prova: É um facto que o modo como o argumento é apresentado,
influencia a crença das pessoas na verdade da conclusão. Mas
a verdade da conclusão não depende do modo como o argumento
é apresentado. Para mostrar que esta falácia está a ser cometida,
mostre que, neste caso, o estilo não afecta a verdade ou a falsidade
da conclusão.
Referências: Davis: 61.
Stephen Downes Tradução e adaptação de Júlio Sameiro
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