A educação filosófica, seja no que concerne à epistemologia, à metafísica, à filosofia política ou a qualquer de seus vários ramos, é bafejada por vicissitudes pessoais que os manuais de ensino da filosofia costumam descurar. Para ilustrar o ponto, passo de imediato à ilustração de como essas vicissitudes podem afetar uma carreira filosófica e moldar antipatias ou entusiasmos. Espera-se contribuir para a reflexão sobre essa matéria importante.
Quando me deparei pela primeira vez com os escritos de René Descartes, eu não passava de um rapazinho bastante precoce, de aparência desleixada, pouco afeito às coisas práticas da vida e não muito apto à convivência com os garotos da minha idade ou com as mocinhas atraentes que então começavam a conquistar os meus olhos e a confundir os meus hormônios.
Sinto-me seguro ao dizer que todos esses amigos e namoradas que nunca tive teriam ficado manifestamente surpresos se soubessem do efeito que as páginas do Discurso do Método causaram na minha alma.
Decerto, não lhes interessariam os detalhes do horror filosófico que então experimentei pela primeira vez. A fase, por assim dizer, destrutiva, que culminava no Cogito cartesiano, pareceu-me irresistível. Por seu turno, a tentativa de Descartes de recobrar as certezas da vida cotidiana mediante a introdução de um Deus incapaz de enganar, cuja existência julgou haver divisado claramente, chocou-me por sua debilidade, de tal sorte que o meu primeiro encontro com um filósofo sério se revelou um tanto traumático.
Durante uma semana inteira, duvidei da existência de tudo, menos do meu próprio ser pensante. Duvidei da realidade do campinho de futebol na escola, assim como das balizas entre as quais se marcavam os gols. De nada adiantava tocá-las com os dedos. A própria sensação, conquanto real, podia não corresponder a nenhum ente externo e objetivo. Duvidei, é claro, da existência das outras pessoas. Das outras mentes. O pior foi pôr em questão a existência da minha própria mãe enquanto ela tomava sopa do outro lado da mesa. Como podia eu passar sem a minha mãe e a sua sopa?
Sem encontrar uma solução intelectual para o problema e literalmente não suportando mais aquele padecimento, não me restou alternativa senão mandar Descartes e todo o seu ceticismo infernal para o diabo.
Talvez até hoje eu carregue uma antipatia residual por Descartes em razão de tão singular iniciação à leitura dos filósofos. E não admira que sempre recomende a quem me pergunta por onde começar que inicie as suas leituras pela República de Platão: uma obra-prima e, quero crer, uma obra bem menos apta a provocar a confusão mental que me acometeu durante a minha primeira e temerária incursão na filosofia.
Alguns dias depois, aquele mesmo garoto tímido voltou à pequenina livraria de bairro, situada bem ao lado de um hospital e de uma farmácia. O garoto ouvira, é claro, falar de Aristóteles. Seus olhos deram então com uma tradução barata, numa daquelas encadernações medíocres características das edições populares. Ali estava o segundo livro de filosofia do qual colheria ao menos alguns parágrafos para a sua instrução. Tinha diante de si uma tradução portuguesa da Política de Aristóteles. O que leu lhe causaria espanto.
Façamos, no entanto, uma breve pausa no relato das minhas aventuras filosóficas. Aquele menino tímido e talvez um tanto estranho era deixado em paz pelos funcionários da livraria. A ninguém ocorria dizer que eu parasse de passar horas lendo ou folheando livros inteiramente de graça, sem pagar por eles um centavo. Não exigiam nem a minha obediência nem o meu dinheiro. Talvez me achassem engraçado ou apenas um fedelho insignificante demais para merecer atenção. Nunca saberão, mas lhes serei eternamente grato por tal indiferença.
Voltemos ao livro. Era a Política de Aristóteles, dizia eu. Já nas primeiras páginas do volume entreaberto, meus olhos correram e vieram pousar, perplexos, sobre passagens em que o tão celebrado filósofo parecia apoiar a escravidão. Aquelas palavras me causaram o mais vivo horror. Olhando com mais atenção, porém, vi algo ainda mais chocante: Aristóteles parecia acreditar que alguns homens eram escravos por natureza, que eram inerentemente inferiores aos seus senhores e que a submissão a estes lhes seria justa e vantajosa. O famoso autor — ateniense, presumia eu, embora mais tarde me contassem que viera de Estagira, lá para o norte — defendia uma instituição perversa e ainda pretendia fazê-lo em benefício dos próprios homens submetidos a ela.
Se Descartes causara um terremoto em meu mundo de certezas comezinhas, eu me via agora diante daquele grego malvado defendendo a escravidão. Imaginara que a filosofia fosse uma área de investigação povoada por homens de nobreza moral incontestável. E aquele sujeito maluco se sai com essa.
Em minha meninice, eu ainda não reconhecia uma verdade básica que a maturidade logo poria diante dos meus olhos: um homem pode elevar-se prodigiosamente acima dos seus contemporâneos em certas matérias e permanecer, em outras, encarcerado nos preconceitos mais cruéis de sua época. Homens exemplares até mesmo pelos critérios de seu próprio tempo podem falhar rotundamente em ultrapassar os horizontes que os cercam. Homens bons podem defender práticas hoje reputadas — e com razão — como odiosas.
Era mais do que o meu intelecto imaturo podia suportar. Foi necessário algum tempo para que Aristóteles caísse novamente em minhas graças.
E assim sucedeu que a minha iniciação filosófica foi repleta de drama e nada teve de um passeio tranquilo por um jardim. As coisas melhorariam mais tarde graças à leitura das páginas bolorentas de velhas enciclopédias populares, entre elas a venerável Barsa. Alguma maturidade filosófica ainda teria de esperar pela leitura de certas obras secundárias: Will Durant, que escrevia num estilo luminoso, e Bertrand Russell, que, embora fosse o mais luminoso dos dois no plano intelectual, não brilhava a cada volteio da frase como Durant, com a sua prosa muito mais acessível, mas nem por isso menos gloriosa. Isso, porém, talvez seja assunto mais adequado para outras reminiscências que esclareçam melhor o impacto dessas leituras de formação.
O leitor deste poderá ficar indignado, mas confesso que perdoei Aristóteles muito antes de perdoar Descartes. Aristóteles não fizera nada para sugerir que minha mãe, debruçada sobre a sua sopa à mesa do jantar, não passasse de uma aparência. Ela e a sopa! Aristóteles não me roubara a mãe!