1 de Setembro de 2026   Filosofia

Terá a filosofia perdido o contacto com as pessoas?

W. v. Quine
Tradução de Desidério Murcho

O que é esta coisa chamada “filosofia”? O professor Adler considera que a filosofia mudou profundamente no último meio século. Já não se dirige ao homem comum, nem se confronta com problemas de amplo interesse humano. O que é a filosofia? Haverá uma coisa reconhecível, a filosofia, que tenha sofrido estas mudanças? Ou terá sido apenas a palavra “filosofia” a transfigurar-se, aplicando-se antes a uma coisa e agora a outra? É evidente que Adler não está preocupado com algo tão superficial como a semântica migratória de uma palavra de cinco sílabas, por mais imponente que seja. Adler diria que, de algum modo, a filosofia é realmente a mesma disciplina, apesar das mudanças que lamenta. Para o mostrar, poderia invocar a continuidade da sua história dinâmica. Mas a continuidade é igualmente característica da semântica migratória de um pentassílabo. Talvez possamos avaliar melhor a mudança ocorrida se olharmos, em vez disso, para as iniciativas e actividades reais, novas e antigas, exotéricas e esotéricas, sérias e frívolas, deixando a palavra “filosofia” aplicar-se onde puder.

Aristóteles foi, entre outras coisas, um físico e biólogo pioneiro. Platão foi, entre outras coisas, um físico em certo sentido, se a cosmologia for um ramo teórico da física. Descartes e Leibniz foram em parte físicos. Naqueles tempos, a biologia e a física eram chamadas “filosofia”. Foram denominadas “filosofia natural” até ao século XIX. Platão, Descartes e Leibniz foram também matemáticos, e Locke, Berkeley, Hume e Kant foram em grande medida psicólogos. Todos estes vultos, e outros que reverenciamos como grandes filósofos, eram cientistas que procuravam uma concepção organizada da realidade. A sua investigação ía efectivamente além das ciências particulares, tal como hoje as definimos; havia também conceitos mais amplos e mais fundamentais que era preciso desembaraçar e esclarecer. Mas o enfrentamento desses conceitos e a procura de um sistema em grande escala continuavam a fazer parte da actividade científica no seu todo. As regiões mais gerais e especulativas da teoria são aquilo que hoje, retrospectivamente, consideramos distintamente filosófico. Além disso, aquilo que hoje se pratica sob o nome “filosofia” tem em grande medida essas mesmas preocupações quando se encontra no que considero o seu melhor nível técnico.

Até ao século XIX, todo o conhecimento científico disponível que tivesse alguma importância podia ser abrangido por um único espírito de primeira linha. Esta situação cómoda terminou à medida que a ciência se expandiu e aprofundou. Multiplicaram-se distinções subtis e proliferou o jargão técnico, muito do qual é genuinamente necessário. Os problemas da física, da microbiologia e da matemática dividiram-se em subproblemas, qualquer um dos quais, retirado do seu contexto, parece ao leigo ocioso ou ininteligível; só o especialista vê o lugar que ocupa no quadro mais amplo. Ora, a filosofia, onde tinha continuidade com a ciência, também progrediu. Aqui, como noutros domínios da ciência, o progresso revelou distinções e conexões relevantes que tinham passado despercebidas em épocas anteriores. Aqui, como noutros domínios, problemas e proposições foram analisados nos seus constituintes, os quais, considerados isoladamente, parecem desinteressantes ou pior.

A lógica formal completou o seu renascimento e tornou-se uma ciência séria há precisamente cem anos, pelas mãos de Gottlob Frege. Uma característica marcante da filosofia científica nos anos que se seguiram foi o uso, cada vez maior, da nova e poderosa lógica. Isso permitiu aprofundar as ideias e tornar mais precisos os problemas e as soluções. Trouxe também consigo a entrada de termos técnicos e símbolos que, embora fossem muito úteis aos investigadores, tendiam a afastar os leigos.

Outra característica marcante da filosofia científica neste período foi a crescente preocupação com a natureza da linguagem. Nos meios responsáveis, isto não constituiu uma retirada perante questões mais sérias. É o resultado de escrúpulos críticos que remontam, ao longo dos séculos, aos empiristas britânicos clássicos, Locke, Berkeley e Hume, e que se encontram mais claramente em Bentham. Nos últimos sessenta anos, tornou-se cada vez mais claro que as nossas noções introspectivas tradicionais — as nossas noções de significado, ideia, conceito, essência, todas indisciplinadas e indefinidas — constituem uma base irremediavelmente frouxa e intratável para uma teoria do mundo. Ganha-se controlo concentrando a atenção nas palavras, no modo como são aprendidas e usadas, e no modo como se relacionam com as coisas.

A questão de uma linguagem privada, que Adler cita como frívola, é um bom exemplo. Torna-se filosoficamente significativa quando reconhecemos que uma teoria legítima do significado tem de ser uma teoria do uso da linguagem e que a linguagem é uma arte social, socialmente inculcada. A importância da questão foi sublinhada por Wittgenstein e, antes dele, por Dewey, mas escapa a quem se depara com o problema fora do seu contexto.

É certo que muita da bibliografia produzida sob a rubrica da filosofia linguística é filosoficamente inconsequente. Alguns textos são divertidos ou moderadamente interessantes enquanto estudos da linguagem, mas só por uma associação superficial foram parar a revistas de filosofia. Outros, de intenção mais filosófica, são pura e simplesmente incompetentes; pois o controlo de qualidade é irregular na crescente produção editorial filosófica. Há muito que a filosofia sofre, ao contrário das ciências nucleares, de um consenso vacilante em questões de competência profissional. Nos estudiosos dos céus distingue-se astrónomos de astrólogos tão facilmente como nos pequenos ruminantes domésticos se distingue ovelhas de cabras; mas distinguir filósofos de sábios e excêntricos parece depender mais dos quadros de referência. Talvez deva ser assim, dado o carácter não-regimentado e especulativo da disciplina.

Muito do que era recôndito na física moderna tornou-se acessível graças à divulgação. Agradeço-o, pois gosto de física, mas não consigo consumi-la em bruto. Um bom filósofo que seja um expositor hábil poderia fazer o mesmo com a filosofia técnica contemporânea. Isso exigiria arte, pois nem tudo o que é filosoficamente importante tem de interessar ao público leigo, mesmo quando é claramente exposto e devidamente situado no seu lugar. Penso na química orgânica; reconheço a sua importância, mas não tenho curiosidade a seu respeito, nem vejo por que razão o leigo haveria de se interessar por grande parte daquilo de que me ocupo em filosofia. Se em vez de ter sido convidado a participar na série da televisão britânica “Homens de Ideias” me tivessem consultado sobre a sua viabilidade, teria manifestado dúvidas.

Aquilo que tenho vindo a discutir sob a rubrica da filosofia é o que chamo “filosofia científica”, antiga e moderna, pois é essa a disciplina cuja tendência recente Adler criticou. Com esta designação vaga não pretendo excluir os estudos filosóficos dos valores morais e estéticos. Alguns desses estudos, de orientação analítica, podem ter espírito científico. Tendem, porém, a oferecer pouco em termos de inspiração ou consolação. O estudante que se especializa em filosofia em busca sobretudo de conforto espiritual está enganado e provavelmente nem sequer é um estudante muito bom, uma vez que não é a curiosidade intelectual que o anima.

A escrita inspiradora e edificante é admirável, mas o seu lugar é o romance, o poema, o sermão ou o ensaio literário. Os filósofos, no sentido profissional do termo, não têm qualquer aptidão especial para isso. Nem têm qualquer aptidão especial para ajudar a pôr a sociedade em equilíbrio, embora todos devamos fazer o que pudermos. O que talvez possa satisfazer estas necessidades sempre prementes é a sabedoria: sophia, sim; philosophia, não necessariamente.1

W. v. Quine
Theories and Things (Londres: Harvard University Press, 1981), Cap. 23.

Nota

  1. Este texto foi escrito para a Newsday, a pedido, como resposta a um texto de Mortimer Adler. Os dois deveriam aparecer juntos sob o título acima. Quando foram publicados, em 18 de Novembro de 1979, aquilo que apareceu com o meu nome revelou ter sido reescrito pelo director daquela publicação. Este é o meu texto não adulterado. ↩︎
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